Roberto Assagioli

Roberto Assagioli

Roberto Greco Assagioli

Roberto Assagioli foi o fundador da Psicossíntese, enquanto abordagem psicológica.

Formado em Psiquiatria foi inicialmente responsável pela introdução da Psicanálise em Itália.

Roberto Grego Assagioli, psiquiatra italiano, foi o criador da Psicossíntese. Tendo embora um papel importante como responsável da introdução da psicanálise em Itália, tema da sua tese doutoral, cedo marcou a sua orientação no sentido de uma abordagem psicológica de carácter integral que designou inicialmente psicagogia e finalmente psicossíntese.

Roberto Marco Grego foi o nome completo dado ao filho único de Leone (também dito Leonello) Grego e de Helena Kaula, ambos de ascendência judia. Nasceu em Veneza (Itália) a 27 de Fevereiro de 1888. Seu pai, engenheiro de profissão, nascera em Verona em 30 de Agosto de 1850 e veio a falecer em Veneza em 8 de Novembro de 1890. Roberto contava assim pouco mais de 2 anos quando ficou órfão de pai. Sua mãe que nascera na Alexandria, Egipto, em 21 de Junho de 1863, provinda de uma família abastada e que falecera em 1925, e veio a casar em segundas núpcias, em 15 de Novembro de 1891, com Alessandro Emanuele Todesco Assagioli, nascido em Veneza a 28 de Fevereiro de 1854, o médico de família que antes havia tratado no hospital o bebé Roberto que veio a perfilhar. Passou este então a identificar-se com o nome de Roberto Grego Assagioli e mais resumidamente Roberto Assagioli.

Desde criança, Roberto Assagioli aprendeu, juntamente com o italiano, o inglês e o francês e seguidamente o grego, o latim e o alemão. Na cidade natal frequentou com distinção o liceu Foscarini conceituado pela formação clássica e científica. Aí cresceu a sua motivação pela medicina e pela filosofia, incluindo a psicologia que, ao tempo, ainda não era considerada disciplina autónoma. Em 1903, com a idade de 15 anos, publicou, no Giornale di Venezia um primeiro artigo de cariz psicológico e social.

Assagioli com Papini e Vailati em 1905

Assagioli com Papini e Vailati em 1905

Em Novembro de 1904, terminados os estudos liceais do filho, a família Assagioli transfere-se para Florença onde Roberto se inscreveu em medicina e cirurgia, na Universidade de Florença, no ano académico de 1905-1906. Aí funcionava já o primeiro laboratório de psicologia anexo à secção de Letras e Filosofia e bem assim o Museu Psicológico, de que Roberto Assagioli veio a ser bibliotecário, de 1906 a 1908, sucedendo a Giovanni Papini. Quase simultaneamente, o psiquiatra italiano Sante De Sanctis organizara em Roma o Congresso Internacional de Psicologia e, sob a influência do americano William James, é lançada em Bolonha a Rivista di Psicologia Applicata de que Roberto se torna um assíduo colaborador, havendo também publicado na revista de Leonardo fundada por Papini. Contrariamente à tese da “vontade de poder” marcante na ideologia desta revista, Assagioli propõe a fórmula “poder da vontade” considerando esta a expressão directa do núcleo espiritual que caracteriza o ser humano.

A orientação do seu pensamento, destaca-se, em 1907, no artigo Fantasia in Re interiore (Fantasia sobre o Rei interior), alegoria de uma vivência misteriosa, provavelmente pessoal, relativa a um jovem que ousa escalar a montanha sobranceira com o topo perpetuamente oculto pelas nuvens, o qual volta à planície a dar a notícia de um castelo esplendoroso existente no topo oculto. A ousadia e contumácia do testemunho considerado mentiroso e perturbador deu azo a julgamento e condenação à pena capital. Acontecera que, ao expirar, as nuvens se dissiparam e toda a gente da sua aldeia sita no vale pode ver o castelo encastrado no topo da montanha pela primeira vez posto a descoberto. Neste artigo que se pode denominar a Parábola da Psicossíntese e que se alia a um outro tema então por ele apresentado designado Nuovo Umanesimo Ariano (Novo Humanismo Ariano) se encontra a semente da sua abordagem psicológica, em que o núcleo espiritual se serve da vontade e por ela de todas as funções bio-psicológicas em função da expressão do potencial humano, ao mesmo tempo misterioso e contagiante, de forma a dar à psicossíntese um carácter ao mesmo tempo humanista, transpessoal e universal.

Assagioli em 1910

Assagioli em 1910

No contexto dos seus estudos universitários, Assagioli viaja pelo estrangeiro, designadamente a Alemanha e a Suiça, participando em congressos e contactando com diversas personalidades, tais como Clararède e Fournoy, por certo empenhado na sua tese em que o tema é a psicanálise. A sua tese, a primeira feita em Itália sobre psicanálise de Freud foi grande parte preparada na clinica universitária de Zurique, sob a orientação de Eugene Bleuber. Aí se familiarizou com Carl Jung em tom de amizade e prova de muitas afinidades.Em carta dirigida a Papini, em 1909 Assagioli atesta: “Todo o meu tempo tem sido dedicado a estudos científicos, em relação com a medicina e sobretudo com a psicologia.” Defendendo em 1 de Julho de 1910 a sua tese consagrada ao estudo da psicanálise, prossegue a especialização em neuropatologia e psiquiatria, fazendo estágio no hospital Burgholzli, em Zurique. Funda, no decorrer desta década, a revista Psiche e o Circulo di Studi Psicologici demarcando-se da psicanálise de Freud, dando corpo e alma à abordagem psicológica que inicialmente designou psicagogia e depois psicossíntese.

No decorrer da Primeira Guerra Mundial Assagioli havia sido convocado para o serviço militar com a patente de médico tenente, havendo prestado os seus serviços no hospital do campo de Palmanova. De regresso, passa a uma fase intensa de acção e reflexão, ensinando e publicando escritos de carácter psicológico e espiritual.

Em 1926, publica o opúsculo Psychosynthesis, A New Method of Healing, um escrito básico relativamente à sua abordagem psicológica e funda em Roma o Istituto di Cura Psichica (Instituto de Cura Psíquica) que nomeia depois, em 1933, Istituto di Psicosintesi (Instituto de Psicossíntese), mormente na revista Ultra. Data de 1930 o seu artigo na revista Ultra intitulado “psicanalisi e psicosintesi”, no qual apresenta pela primeira vez, em esquema inicial o diagrama do ovo, básico na ilustração da psicossíntese. Em 1928 inicia em Roma, no seu Instituto, uma série de lições, ministradas ao Domingo, seguidas de diálogo e aplicações práticas. Oferece, além disso, às quintas feiras, um consultório educativo destinado a pais e professores. Em 1931 publica o exercício da desidentificação e auto-identificação, marcante na prática da psicossíntese. Nesta época, ministra ao Domingo uma série de cursos de carácter psicológico e participa activamente em círculos culturais. Em 1936, proporciona um curso por correspondência.

Assagioli em Nova Iorque em 1937

Assagioli em Nova Iorque em 1937

O governo italiano fascista e anti-semita de Mussolini põe em suspeita as ideias e actividades do  á famoso médico Roberto Assagioli, dado o seu teor pacifista e humanitário e, em 1938, força ao encerramento do seu Instituto. Este vem a ser reaberto mais tarde, em 1946, em Florença e aí oficializado. Nesta data, Roberto deixa de exercer a medicina para se consagrar totalmente a escrever, ensinar e propagar a psicossíntese.

Entretanto havia ocorrido o período conturbado da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 1940, regressando de um simpósio em Inglaterra, é visitado pela polícia e levado para a prisão, onde é questionado e mantido isolado por um mês. Isso lhe proporcionou um regime de leitura e meditação dando lugar a uma experiência iluminadora que testemunha no manuscrito “Freedom in Jail”. Em 1943, face a uma sistemática do regime aos judeus, apoiado por amigos, refugiou-se no norte montanhoso do país. Entretanto, a sua residência foi vasculhada e depois dinamitada, ficando destroçados e desaparecidos muitos dos seus escritos. Com a chegada das tropas aliadas foi liberto em Agosto de 1944. Na fase final da guerra, dirigiu um hospital neurológico na Holanda.

Em 1946 transfere-se para Florença e reabre o Instituto de Psicossíntese no edifício por ele adquirido na Via San Domenico 16, a caminho de Fiesole, o qual passou a servir de residência familiar e de sede do seu Instituto. Nesta data, Roberto deixa de exercer a medicina para se consagrar totalmente a escrever, ensinar e propagar a psicossíntese. Nos anos seguintes desloca-se como conferencista e escreve apoiando grupos particularmente dedicados à psicologia, à espiritualidade em geral e à meditação em particular, designadamente na Inglaterra, Suíça, Alemanha e França. Nos Estados Unidos funda, em 1958 a instituição Psychosynthesis and Research Foundation.

Assagioli em 1972

Assagioli em 1972

A partir desta época a psicossíntese expande-se, mediante palestras, congressos e a constituição de centros da especialidade, quer na Itália quer no estrangeiro, não só na Europa, mas também na América e na Ásia. De 1963 em diante, Assagioli, sendo coadjuvado no ensino por vários dos colaboradores mais próximos, orienta, então em Florença, uma nova série de cursos em psicossíntese que vem a prolongar-se até 1978, depois da sua morte. Datam desta época as suas principais publicações, designadamente os volumes Psicossíntese – Manual de Princípios e TécnicasO Acto da Vontade, originariamente escritos em inglês e traduzidos em diversos idiomas.

Profissionalmente, Assagioli tornara-se notório e era apelidado de “médico que faz milagres”. Muito erudito, viajado e conceituado, privara com grandes figuras da época, sendo de mencionar, entre muitos outros com quem se relacionou pessoalmente, os nomes de Giovanni Papini, Benedetto Croce, Agostino Gemelli, Umberto Fiori, T.Flournoy, E. Claparede, Charles Baudouin, Martin Buber, Herman Keyserling, P.D. Ouspenski, Lama Govinda, Inayat Khan, D.T. Suzuki, Rabindranath Tagore, Alice Bailey, Ira Progoff, Alexandra David-Neels, Viktor Frankl, Robert Desoille, Abraham Maslow e particularmente Carl Jung.

Pelo que diz respeito à sua vida privada, como esposo e pai, e mesmo antes como filho, Assagioli fora extremamente discreto. Após a provação de um casamento que teve o seu desfecho no divórcio, ele veio a desposar Nella Capetti de religião cristã e envolta no movimento teosófico. Tiveram o filho único de nome Francesco Ilario Assagioli, nascido em 12 de Setembro de 1923 e falecido, muito jovem, em 6 de Novembro de 1951, vitimado pela tuberculose. Luisa Lunelli, que de muito perto privou com o casal Assagioli, dá testemunho do carinho no seio familiar e dos cuidados dispensados ao filho enfermo e bem assim dos cuidados de Roberto pela esposa que finalmente o deixou na viuvez. É Lunelli igualmente quem descreve a serenidade de Assagioli aquando da perseguição e encarceramento, e depois na fuga e refúgio na casa de um pastor de gado na montanha e particularmente na doença e morte do filho cujo nome terá sido a última palavra que ele pronunciou.

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Assagioli na sua casa de Verão em Capolona, Itália

Falta ainda uma biografia de Assagioli sistematicamente organizada. Variados são os testemunhos a seu respeito, salientando em geral a sua espiritualidade e sabedoria sorridente. É Lunelli ainda quem oferece um perfil de Roberto assaz pormenorizado, dando traços da sua pontualidade permeada de paciência face ao atraso de outrem, da sua cordialidade, da sua cortesia, do seu sentido de acolhimento, da sua capacidade de escuta, da sua extrema bondade, da sua simplicidade, da sua modéstia evitando falar de si próprio, do seu gosto de recolhimento e meditação no silêncio da noite, da sua calma, da sua irradiação, da sua benevolência incapaz de julgar quem quer que fosse, mencionando qualidades e jamais defeitos, da sua sabedoria e amabilidade, do seu desprendimento e espírito de serviço, do seu bom senso e do seu amor.

Assagioli em 1974

Assagioli em 1974

Na idade de 86 anos, na aurora do dia 23 de Agosto de 1974, ocorre o passamento de Roberto Assagioli, na sua residência de Verão Vila Serena, Capolona, Arezzo. Não obstante tanto se falar de Roberto Assagioli, talvez se possa dizer dele, que continua sendo, na sua pessoa e na sua obra um grande desconhecido, quiçá mesmo no contexto da psicossíntese. Ainda no dizer e observação Luisa Lunelli, trata-se de “um cavalheiro reservado, um estudioso sobretudo solitário e estimado de quantos o haviam conhecido; mas poucos o conheceram.” Daí a recomendação por ela feita: “Aquilo que hoje importa fazer é descobrir Roberto Assagioli; é penetrar no grande segredo da sua vida e medir esse oceano de amor que o levava ao encontro dos homens.”

 

Texto escrito por João d´Alcaravela